A unção de Jesus: um único episódio ou vários eventos distintos?

Durante séculos, leitores dos Evangelhos tiveram a impressão de que todas as unções de Jesus narradas no Novo Testamento descrevem um único acontecimento.
Mas uma leitura atenta — considerando tempo, lugar, personagens e intenção — mostra exatamente o contrário.
Os Evangelhos descrevem eventos semelhantes, porém distintos, ocorridos em momentos diferentes do ministério de Jesus.
O ponto central da confusão
A confusão em torno da unção de Jesus surge da tentativa de identificar todas as mulheres mencionadas nos Evangelhos como sendo a mesma pessoa.
Ao longo da história, Maria de Betânia, a mulher pecadora de Lucas 7 e Maria Madalena foram fundidas em uma única figura, sem que o próprio texto bíblico faça essa identificação.
Essa sobreposição não nasce da narrativa bíblica, mas de tradições posteriores que ignoraram diferenças claras de tempo, lugar e contexto.
João 12:1–8 — Maria de Betânia, sem equívocos

O Evangelho de João é explícito ao situar esse episódio em Betânia, seis dias antes da Páscoa, na casa onde estavam Marta, Maria e Lázaro.
Desde o primeiro versículo, o autor elimina qualquer ambiguidade ( equívoco ) ao associar o local à família de Lázaro, já conhecida do leitor desde o capítulo 11.
Quando o texto afirma que “Maria tomou o perfume”, o contexto já está definido: trata-se da irmã de Marta e Lázaro, não de uma mulher anônima ou de outra Maria mencionada nos Evangelhos.
Lucas 7:36–50 — uma mulher anônima, em outro tempo

Em Lucas 7, o cenário é completamente diferente daquele apresentado em João.
O episódio ocorre na casa de Simão, o fariseu, em uma cidade da Galileia, muito antes da última semana de Jesus em Jerusalém.
A mulher não é identificada pelo nome. Ela é descrita apenas como “uma pecadora”, e seu gesto é marcado por lágrimas, arrependimento e pela busca explícita de perdão, não por um ato profético ligado à morte de Jesus.
Eventos semelhantes, contextos distintos

Embora os gestos descritos nos Evangelhos sejam semelhantes — o uso de perfume caro, o ato de ungir Jesus e a reação de espanto dos presentes — os contextos deixam claro que não se trata de um único evento.
Os locais são diferentes, os tempos no ministério de Jesus não coincidem, as mulheres não são as mesmas e a intenção teológica de cada evangelista também varia.
A semelhança do gesto não autoriza a fusão dos episódios. Pelo contrário, ela exige uma leitura ainda mais cuidadosa, atenta às particularidades de cada narrativa.
Conclusão
A leitura atenta dos Evangelhos mostra que a unção de Jesus não pode ser reduzida a um único episódio.
Maria de Betânia, a mulher pecadora de Lucas 7 e as mulheres anônimas mencionadas por Mateus e Marcos pertencem a contextos distintos, em momentos diferentes do ministério de Jesus.
Respeitar essas distinções não enfraquece a mensagem bíblica — pelo contrário, aprofunda sua riqueza e preserva a integridade do texto.
Obrigado por dedicar seu tempo à leitura deste artigo.
Minha oração é que este conteúdo tenha servido para edificação, reflexão e crescimento no conhecimento da Palavra de Deus.
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Edevaldo C. Monteiro