A resposta de David Ben-Gurion: “Tem um motivo”

Circula há anos uma narrativa atribuída a David Ben-Gurion que levanta uma pergunta provocativa sobre identidade e continuidade: como pode um povo espalhado pelo mundo há mais de dois mil anos ainda afirmar unidade cultural, histórica e espiritual?
Mais importante do que identificar o cenário exato ou os interlocutores desse diálogo é compreender o seu cerne. A narrativa não busca registrar um fato diplomático documentado, mas ilustrar uma questão fundamental: o que sustenta a identidade de um povo ao longo dos séculos?
A resposta atribuída a Ben-Gurion é simples e direta: tem um motivo. E esse motivo encontra profundo eco na Palavra de Deus ( דְּבַר־אֱלֹהִים – Davar Elohin ).
O cerne da narrativa: memória ensina
da, não apenas lembrada

A narrativa atribuída a David Ben-Gurion constrói sua resposta por meio de um contraste entre dois eventos fundadores. De um lado, a travessia do Mayflower, central para a história dos Estados Unidos, mas cujos detalhes raramente são conhecidos ou ensinados às novas gerações. De outro, a saída do povo de Israel do Egito, cujos personagens, duração, sinais e provisões permanecem vivos na memória coletiva do povo judeu.
O argumento ilustrativo sugere que a diferença não está na importância histórica dos eventos, mas na forma como eles são transmitidos. Enquanto um se tornou um marco distante, o outro permaneceu vivo porque foi continuamente ensinado às crianças, repetido nas casas e integrado à vida cotidiana.
O cerne da resposta, portanto, não está na comparação histórica em si, mas na constatação de que a permanência de um povo está diretamente ligada à maneira como sua história fundante é ensinada e transmitida às próximas gerações.
Um contexto histórico real, ainda que uma narrativa ilustrativa

David Ben-Gurion governou Israel em um período decisivo de sua história, mantendo relações diplomáticas com diferentes presidentes dos Estados Unidos. O momento de maior tensão ocorreu especialmente durante a presidência de Dwight D. Eisenhower, cuja política externa priorizava o equilíbrio no Oriente Médio e mantinha reservas quanto às ações israelenses, sobretudo após a Crise de Suez, em 1956.
Não existe registro histórico oficial que documente a conversa específica frequentemente atribuída a Ben-Gurion com um secretário norte-americano. Ainda assim, o ambiente diplomático daquele período — marcado por questionamentos, pressões e resistências reais — ajuda a compreender por que uma narrativa desse tipo circula.
O valor do relato, portanto, não está em sua precisão documental, mas em como ele ilustra um princípio que a Escritura já havia estabelecido séculos antes.
O motivo não é apenas memória histórica

A narrativa destaca que crianças judias, em diferentes países, conhecem a história do Êxodo, seus personagens e o significado daquele evento fundador. Essa preservação da memória não acontece por acaso.
Na Bíblia, a memória não é espontânea. Ela é mandamento. O povo não é apenas exortado a lembrar, mas a ensinar aquilo que o Senhor fez ao longo de sua história.
A permanência de um povo, portanto, não está apenas ligada à lembrança de eventos passados, mas à prática contínua de transmitir esses eventos às próximas gerações.
Eis a integra da possível conversa:
Secretário:
“Diga-me, a quem o senhor representa realmente?
É possível falar em nome de um povo que vive na diáspora há mais de dois mil anos e ainda afirmar que possui a mesma cultura e tradição?”
Ben-Gurion:
“Permita-me uma comparação. Há cerca de trezentos anos, um navio partiu da Inglaterra levando os primeiros colonos para o que hoje são os Estados Unidos. Se o senhor perguntar a crianças americanas o nome do capitão, quanto tempo durou a travessia, o que foi servido durante a viagem ou como estava o mar, dificilmente obterá respostas.”
“Agora, pergunte a crianças judias, em países diferentes, quem conduziu o povo na saída do Egito, quanto tempo durou a travessia, o que comeram no caminho e como o mar se comportou.”
“Quando ouvir respostas semelhantes de todas elas, talvez compreenda a quem eu represento.”
A ordem divina de ensinar

Em Deuteronômio 6, Deus deixa claro que sua Palavra não deveria permanecer restrita a uma única geração. Aquilo que foi revelado deveria ser guardado no coração e transmitido continuamente.
“Estas palavras… as ensinarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te.”
O texto descreve uma pedagogia cotidiana, intencional e constante. A fé bíblica não sobrevive por herança automática, mas por transmissão deliberada, consciente e contínua. Ou seja o Eterno quer se relacionar diariamente contigo e comigo.
Não é assim quando somos agraciados com a maternidade, depois de um logo dia de trabalho ambos, filhos e pais querem estar juntos.
Crianças no centro da continuidade
Na Escritura, as crianças não ocupam um papel secundário. Elas estão no centro do projeto de continuidade da fé e da identidade do povo de Deus.
O Êxodo deveria ser explicado aos filhos. A Lei deveria ser recitada diante deles. A história da salvação deveria ser repetida geração após geração.
Israel não permaneceu povo apenas porque teve uma grande história, mas porque ensinou essa história de forma intencional e constante.
E eu particularmente acredito ser este um dos motivos porque o Eterno não desiste de nós, ao ver que seu seu povo escolhido e enxertado obedeceu e obedece a este mandamento.
O que sustenta um povo segundo a Palavra de Deus
Segundo a Escritura, um povo permanece quando a Palavra de Deus é guardada no coração, ensinada às próximas gerações e transformada em prática diária.
Quando esse processo falha, o esquecimento produz ruptura e perda de identidade espiritual.
“O meu povo foi destruído por falta de conhecimento…” (Oséias 4:6)
O problema nunca foi a ausência de grandes eventos, mas a ausência de ensino fiel e contínuo.
E é por isso que nos os Notzrim ( נוֹצְרִים ) literalmente nazarenos nos fragmentamos ( católicos, evangélicos etc… ) tanto ao longo da historia pois focamos mais no proselitismo do que levar um boa nova.
Através do ensino continuo, que ficou secundário as liturgia criadas pelos homens.
A palavra transliterada para a língua português, Notzrim vem de Natzrat (נָצְרַת) = Nazaré.
Um princípio que atravessa o Novo Testamento ( HaBrit HaChadashá / הַבְּרִית הַחֲדָשָׁה )
O mesmo princípio que fundamenta a transmissão da fé no Antigo Testamento atravessa o Novo Testamento.
Quando Jesus institui a Ceia, Ele não estabelece apenas um ritual, mas uma memória ativa, ensinável e comunitária.
Assim como o Êxodo formou Israel, a cruz forma a comunidade cristã. Sem memória ensinada, não há continuidade da fé.
CONCLUSÃO
Quando se pergunta por que um povo permanece ao longo dos séculos, a Escritura oferece uma resposta clara: tem um motivo.
Esse motivo não está apenas na memória de eventos passados, mas na Palavra guardada no coração e ensinada fielmente às próximas gerações.
A resposta atribuída a David Ben-Gurion funciona como uma ilustração histórica. A Bíblia, porém, revela a razão espiritual por trás dessa permanência.
E essa razão continua válida — ontem, hoje e sempre.
Nota de origem
Este artigo foi inspirado pela leitura de um texto de Jayme Fucs Bar, publicado na plataforma Judaísmo Humanista, que apresenta uma narrativa reflexiva atribuída a David Ben-Gurion sobre identidade, memória e continuidade.
A leitura desse material despertou a reflexão aqui proposta, posteriormente desenvolvida à luz da Palavra de Deus, buscando dialogar com o tema a partir das Escrituras. O texto original serviu como ponto de partida inspirativo, enquanto o desenvolvimento bíblico e teológico deste artigo é de responsabilidade do autor.
Texto original:
https://judaismohumanista.ning.com/xn/detail/3531236:BlogPost:199810
Obrigado por dedicar seu tempo à leitura deste artigo.
Minha oração é que este conteúdo tenha servido para edificação, reflexão e crescimento no conhecimento da Palavra de Deus.
Caso queira conversar, tirar alguma dúvida ou compartilhar uma reflexão bíblica, deixe um comentário. Será um prazer dialogar.
Edevaldo C. Monteiro